FOI BOTO, SIM!

Carlos Nilson da Costa, professor, escritor, poeta, esposo da minha irmã Regina, pai de meus sobrinhos e sobretudo, meu amigo, com quem iniciei a vida profissional e com quem até hoje aprendo muito, bato longos papos, escuto músicas inesquecíveis , assisto meu filme preferido Casa Blanca e tomo um gostoso açaí.

Regina Lúcia e Carlos Nilson

É de autoria dele o texto à seguir. Bastante interessante, muito bem escrito e, só lendo para se deliciar da  imaginação que flui de meu amigo.

FOI BOTO, SIM!

O lado de fora da ilha de Marajó tem andado muito agitado.É o lado que fica defronte pro oceano que o pessoal chama de costa oceânica ou de litoral. Não tem muito peixe, pelo menos a gente não tem conhecimento de muitos pescadores andando por essas paragens. Na vila do Amapá, que é a sede de um povoado no interior, ainda aparecem homens que pescam em canoas de velas. Tem fazendas de pouco gado, mas não são trazidos para o Pará.Algum gado fica para fazer matança na Vila de Macapá, localizada na foz do Rio Amazonas, bem de frente com um monte de ilhas pertencentes ao arquipélago do Marajó. Tudo de ilha que existe aí é o Marajó.

     É uma região que não tem balata nem seringueira. Não dá borracha! Tem um lugar que é pros lados da Martinica, tem a ilha do Diabo, local em que prendem uns marginais que dão problemas pros franceses, ingleses e holandeses que moram por lá. É um mar danado, cheio de ondas e maresia que não parece rio. É mais um oceano mesmo. O dinheiro deles é outro e eles falam atrapalhados em outra língua. Tem muito índio e não usam o que nós temos de costumes. Isso é pro norte onde tem ilhas do Bailique. O pessoal de lá se arrisca mas não é de fazer fé que tenha lugar de pescaria. Pode até ter peixe mas ninguém sabe direito.


Nos baixo e médio Amazonas a gente vive melhor. Ninguém liga pro norte porque é muito oceano e nossas canoas são pequenas. Não dá muita segurança nas nossas viagens com mantimentos. Têm umas vilas pro lado das ilhas que têm terra na outra margem, no continente. É o Mazagao, onde os homens vieram da África para morar lá. É um lugar de difícil paragem porque eles são diferentes. Mas tudo gente boa. Nas ilhas, o pessoal é mais dado e a gente se entende. Isso mesmo, nosso negócio é pros lados do Pará.


Pará é como se chamava nos municípios do estado, a capital Santa Maria de Belém do Grão Pará.
Assim era o entendimento das pessoas, principalmente dos ribeirinhos que moravam às margens dos rios, formando aglomerados de moradores, ou vilas e até cidades que amadurecem sem apresentar muito crescimento.


A vida corria não muito tranquila pelos anos das duas guerras mundiais, início do século XX e, Ditadura. Não há  precisão de datas, mas o dinheiro da balata e da seringueira era bem farto, embora mal distribuído, chegava de alguma forma ao povo. Principalmente aos ribeirinhos que buscavam no extrativismo uma atividade de subsistência com os recursos vindos até o século XIX. Originados da balata e da seringa. A Amazônia não era esse encanto que hoje é celebrado.  Constituía-se em cidades como, guardadas as proporções,  metrópoles parisienses ou de reflexos de costumes parisienses, vistos Manaus e Belém do Pará.


Chega ao porto de Belém uma embarcação de grande porte, um desses navios que fazem a rota da costa brasileira. Turistas patrícios, todos trazidos pelas curiosidades das coisas do mato e das novidades que surgiam na Europa com ênfase de Paris. Não faz muito, houve a virada do século,  com o surgir radioso do que recebe o número XX.


Passageiros do navio, muitos nortistas que vieram tentar a vida na Amazônia. Entre eles estava Gonzaga . Cabra bom de trabalho e desassombrada da gota. Logo buscou agasalho em uma pensão “familiar “, sem classificação, na área do Porto, aguardando a oportunidade de seguir rumo ao médio amazonas, disposto a extrair látex ou balata. Estava dando muito dinheiro na época.


Gonzaga, rapaz solteiro, fazia parte de uma família de retirantes que se dividiram. Uns para o sul em “pau de arara” e outros em navios para o norte, “pra não se meter muito com gente prosa”.


Sentado no ambiente do porto, arrastando uma conversa molhada com uns tragos de cana entre os embarcadiços de barcos e batelões do interior, em outras horas tirando uma soneca em redes atadas nos mastros de velas de canoas atracadas umas nas outras, no que representava um porto diferente do que ancorava o navio grande que lhe havia trazido nas acomodações mais sem luxo.


Os dias foram se passando, conversas sem muita lógica ou com nenhuma que se aproveitasse, e algumas noitadas não muito longas, já que “gente estranha não pode cantar de galo em terra alheia, logo de primeira”. A comunicação fácil proporcionou ficar conhecido no ambiente do cais ou redondezas. Nas conversas molhadas contava sempre as peripécias sobre sua região. Era o sertão sofrido, prosas sobre façanhas em forros históricos e muitas aventuras que lhe garantiam ser um perfeito rufião.


Havia sempre um questionamento: porque os retirantes sempre saiam de suas regiões por terra, em caminhões ” pau de arara” e ele, Gonzaga chegava de navio bonito. A explicação veio de pronto: “- O negócio onde eu estava não foi mais pra frente , peguei minha parte e vou tentar aqui algo diferente e mais certo que duvidoso”.


Acertado o dia da viagem. Maré alta e lá se foi Gonzaga em companhia de três aventureiros. A embarcação era do tipo chamado ” motor”, ainda abundante nos rios amazônicos, uma espécie de lancha de madeira que levava mantimentos para toda a região por onde passava, até o médio amazonas.


As noites, entre prosas, causos quase sempre envolvendo almas penadas e anedotas gostosas com o pessoal de bordo( a embarcação não era para passageiros, os quatro iam de carona pagando o rancho). Aflorava a gozação com que tiravam o sarro com o nordestino, dizendo, entre outras coisas, que pros seus lados se vendi bode por minuto. Aparecia um comprador e pedia: quero dez minutos de bode, então o proprietário abria a porta do curral e conferia dez minutos saindo bode. Ao encerrar o tempo, fechava novamente a porteira e o comprador pagava pelos dez minutos e não pela quantia de bode. Debruçando, o nordestino dizia que os amazônicos comiam jacaré e corriam para o mato com medo de automóvel.


Assim, deixando os colegas pelo caminho, chegou à região do Trombetas. Desembarcou, e, após ligeira conversa com a gente do lugar buscando a identificação para se relacionar, logo foi conduzido para uma casa rústica, construção de madeira sem forro  e cobertura de palha de palmeira, como é característica do lugar.


O porto, como é identificado uma atracação de madeira na horizontal, firmemente pregada em esteios mais grossos e resistentes onde atracou o motor, era complementado por um pequeno trapiche de paxiúba postas sobre umas bem fincadas toras de madeira  segura e atracadas apesar do lodo e argila da margem do rio, onde atacavam as canoas pequenas chamadas de montarias. Embarcações das vizinhas e de crianças que naturalmente vinham buscar mantimentos para suas moradias. A casa, agasalhada o comércio ao lado que servia à  população  que habitava as redondezas. Havia umas vinte casas distantes uma das outras.


Uma coisa intrigou Gonzaga durante a viagem: a história do boto.


Essa figura graciosa e exótica acompanhou-o durante todo o trajeto da viagem.


Onde já se viu um bicho desse que vevi na água virá homi pra – – issobolir com a mulher filha dos outros. Isso é coisa de quem não tem o que fazer! Como ele sai da água e não fica molhado pra gente não conhecer que é boto?


– Isso tem coisa do Demo ou então é  cachaça da braba que num da pras pessoas repararem direito. A gente se junta e capa esse cabra no rastro. O saco cai podrinho e não tem cura mais.


Passado uns poucos dias e o nosso personagem em pleno trabalho na selva, pois tinha assimilado perfeitamente a tarefa restaurante de coleta de látex,  produto abundante nessa região. Ganhou também a confiança de seus colegas. Fazia nome como trabalhador pontual e bastante eficiente na entrega de mantimentos ao longo dos rios vizinhos quando não está na tarefa de extração da borracha. Assim, conheceu Dalila, moça disputada nos folguedos dessa região do interior. Natura, sem experiência de cidade, mas uma formosura de pele morena e macia. Cabelos negros e lisos brilhavam que nem espelho de lago ao luar. As pernas, parecem oferecer carinho e calor. Mulher arretada de bonita!


Dalila tinha plena consciência de sua beleza e seus encantos, só não sabia como tratar disso. O tempo passou e Gonzaga frequentava com assiduidade o porto da casa de Dalila.  Conversas longas e festas de Santos estreitaram a relação.  Após dois anos na região, Gonzaga casa com Dalila.  Foram morar em uma casinha humilde e afastada do barranco da beira do rio. Para se chegar ao porto da casa havia um caminho de uns tinta metros entre arbustos e capim. As canoas e botes atracavam em estacas fincadas na lama.
A escada era feita de uma tora de madeira inclinada e com fortes golpes fazendo os degraus para não escorregar os pés .


A vida transcorria calma e cada vez melhor. O casal já possuía três filhos e algum dinheiro. Dois curumins e uma cuiantã,  – a primeira, Tereza  com quatorze anos ajudava a cuidar de Cícero com sete e Anastácio com cinco.


Tereza ficou moça faceira e bem jeitosa. Muito parecia com a mãe na beleza e meiguice. Um pouco mais sapeca. Os cuidados paternos eram exercidos predominantemente pela mãe, pois Gonzaga vivia na mata, aparecendo em casa de tempos em tempos, trazendo os produtos de mantimento. A manutenção da família era completada com a compra de víveres do regatão que apostava em um espaço de tempo em torno de trinta dias. Vendendo mercadorias da cidade e comprando produtos da região para abastecer a freguesia citadina.


Gonzaga, mudando de trabalho de vendas, atuava no extrativismo de balata e caroços com que suprida o regatão, fazendo venda ou troca de mercadorias.




Um jovem e afoito rapaz, embarcadiço do regatão era muito frequente nas visitas a casa de Gonzaga. Tereza, já moça feita e fogosa, gostava de conversar com Santino. Este, lhe contava maravilhas da cidade, suscitando na cabeça de Tereza um mundo de sonhos e fantasias. Presentes muito poucos ela recebia, ate porque não era bom fomentar desconfiança dos pais da moça.


O interesse do rapaz pela jovem foi aumentando sem que Dalila se desse conta. Nas festas da redondeza( que não eram poucas, aconteciam bem animadas e com muita bebida) sua presença era uma constante e Tereza não perdia uma, sempre acompanhada por outras moças do lugar.


No retorno de Gonzaga, o que acontecia após um bom período de trabalho, Tereza lhe contava as aventuras de seu sucesso e da admiração que despertava entre os gravosos rapazes ribeirinhos.


Gonzaga chama Dalila a um canto e conversava:
-” Mulher, toma conta direito de nossa filha, acho que ela anda muito solta e tem gente botando olho gordo”!
– É nada não, marido. Tô sempre no rastro dela.
-” É, mas nunca é muito zelar pelo que é nosso. Num quero ter desgosto”.
-Tudo bem. Não te amola que vou tomar de conta melhor. Chegou muito desconfiado, a gente espanta é põe prá correr.


Dalila sabia bem que é assentamento de moça presa e tirava tudo por menos. Dava uma folguinha pra pirralha aproveitar sua juventude.


Passaram-se dois meses de folguedos e namorados. Começou a ficar muito constante as histórias de botos frequentando festas. Havia até causos ” concretos” com pessoas conhecidas, dizia Tereza, como na festa de Santo Antônio, no mês de junho: tinha dois botos dançando e namorando  sempre para o lado que ficava o rio e nunca tiravam o chapéu da cabeça.


Gonzaga, sabedor das histórias ficou matreiro e conversou com Dalila.:
– ” Como é mesmo esse negócio de boto empenhar moça virgem”?
– Ora marido, é isso que tu já sabe.  Vira moço bonito e a mulher não resiste, mesmo que deseje. Eu até já vi uns, só que não liguei, aí ele namorou minha prima. O filho dela é filho de boto!


Tudo bem, Gonzaga parte novamente para tirar balata.


Um belo dia, fronteira e vômito a parte, Tereza revela à  mãe que conheceu um rapaz bonito e bom falador que encontrou numa festa e não mais viu. Pronto, estava arma da a confusão!


Uns quatro meses após, Gonzaga volta e toma conhecimento da novidade. Fulo da vida, ameaçou a botar o mundo abaixo. Cancelou a próxima viagem e se pôs a pesquisar o comportamento da filha.


-” Não é possível, a gente se mata no trabalho e vem um bicho qualquer desgraçar  a família de quem vive honestamente”.


Gonzaga soube da relação com Santino, mas nada deixou transparecer. Bateu-se em busca de um possível causador da desgraça.


Transcorrido uns vinte dia D e lá chegou Gonzaga.
-“Pronto Dalila, encontrei o boto. Era um bicho perigoso e arisco”.

– Como foi marido?
-Se que foi fácil.  Andava pelas bandas da várzea do outro lado e aí peitei o bruto.
– Meu Deus! Por quê perigo passou o meu velho!
-Qual nada, tinha um facão e mandei ferro no lombo e na cara do cabeça furada.

Nesse momento, jogando no chão um pequeno embrulho de pano ensanguentado, que se abriu ao cair, provocando exclamação de todos e arrancando de Tereza um grande espanto e profunda tristeza com início de desespero, ao ver a parte cortada , e exclamou:

– Papai, o senhor matou o Santino!

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