Meu Pai_ Mestre Chico

 

Eu e meu pai, no dia do meu casamento
_ Bom dia Mestre, como vai?

_ Mestre , dá para o senhor amolar a minha serra?

_Mestre, pode dar uma puxadinha nas minhas costas que não param de doer?

_Mestre, me arranja um cigarrinho?

Tipo diferente era este Mestre! Não se formou na escola. Foi alfabetizado pela mãe. Aprendeu as contas de mais e de menos, a ler folhinhas de calendário e a Biblia. Coisa que gostava muito de fazer na Semana Santa, mas a escola da vida foi mais do que suficiente para torná _ lo Mestre. Na verdade era mestre em natureza.Mas quem lhe deu essa alcunha foi a profissão de carpinteiro.

Mestre Chico não parava com o serrote. Os braços dos primeiros postes foram esculpidos também por suas mãos. Nesse período tornou-se Mestre em eletricidade.

Todo mundo conhecia Mestre Chico. Ou seria Mestre Chico que conhecia todo mundo?

De manhã bem cedo lá ia ele descendo a ladeira do famoso Bairro Alto. Era alto também. Esguiu , coluna dura. Nunca deixava o boné e a sacola que carregava com os tesouros que lhe ajudavam a completar o sustento da família .

Nos pés,  sandálias. Só em grandes ocasiões colocava sapatos fechados. É que um dia, um braço de poste,  construído por suas mãos,   caiu lá de cima, quase lhe decepando os dedos.

Meninos, quando consegui levantar a canoa e pegar um pedaço do banco para servir de remo,  levantei os olhos para o céu e vi na minha frente aquela imagem linda de mulher,  com os braços abertos, estendidos para mim, sorrindo, como se me devolvesse a vida.

Esta é uma das histórias que Mestre Chico contava. É que além se carpinteiro era também pescador e adorava construir canoas.

A família desconfiava que era mais construtor do que o resto que dizia saber fazer .

Um dia, assim que terminou a construção de Misericórdia,  puxou_a para dentro do canal da cidade e atravessou_o, passando por baixo da terra , saindo no Rio Amazonas,  na frente da praça. Estava acompanhado de uma lamparina , de uma rede de pescar e dos anjos que o protegiam. O nome da canoa Misericórdia,  foi em homenagem ao genro que nasceu na cidade de Misericórdia,  na Paraíba. 

Se a maré subisse de repente  , a canoa alagaria e ele morreria , na certa. Mas ,conhecedor da natureza, calculara tudo direitinho.

Mestre Chico , já beirando os setenta anos, ainda garantia galanteios para as moças que frequentavam o bar Caboclo e ou rondavam a noite na praça do cemitério. 

De onde vem tanta juventude, perguntavam os amigos.

Durmo cedo, bebo muito pouco e ando muito a  pé.  Pra que quatro rodas se Deus me deu duas para caminhar?  Mas o meu maior segredo é a Catuaba. Basta uma xicara de chá por dia que o resultado é de lascar.

Um dia, lá por Belém do Pará,  ganhou da mulher do filho mais velho, um disco. Eita coisa boa! Escuta só mulher, que musica porreta! E lá ia ele saltitando nas pontas dos pés o “Morena Tropicana,  Eu Quero Teu Amor. Mas, a mulher tinha horror dos nomes feios e das estrepolias que ele fazia. Na verdade, lá por dentro, ela bem que admirava,  só não falava para não dar o braço à torcer.

Mestre Chico,  para não perder a habilidade, sempre tecia uma rede de pesca.Passava horas sentado lá atrás,  na área externa da casa, tecendo_a e fazendo planos de quantos peixes iria pescar.

Quando a saudade batia,  juntava a sacola, a faca, um punhado de farinha e lá ia ele visitar os parentes e amigos que viviam nas ilhas próximas. Passava dias andando pelos rios que ele conhecia tão bem. Às vezes, levava o violão e tocava para os amigos dançarem e cantarem juntos.

Levanta a perna Bonifácio. Isso, agora vire que eu vou esfregar o sabão. E o porco obedecia. Era cria para comer nos 15 anos da filha mais nova.O porco ficou tão domesticado que ninguém conseguiu comer.Ele mesmo saiu distribuindo a carne pela  vizinhança. 

Casou todos os filhos.Eram sete. Deram muito trabalho pra mulher que era forte, trabalhadora,  de gestos finos,  católica e apostólica.  Exemplo de bravura e perseverança. Aquela mulher que tanto a Bíblia fala.

Ele conseguiu viver com todos numa boa. Não havia cobranças. Até a porta da casa era fechada com um cordão. Era só  puxar e entrar. Por quê brigar? Cada um deve saber os seus limites e Mestre Chico não aceitava que sua liberdade fosse tolhida. Nascido à beira do rio,  criado solto, convivendo com o boto e as assombrações da Mata, não conseguia entender que as pessoas não pudessem dispor de suas próprias vidas.

_ Vicente,  desde que te conheço que não paras de mastigar! Que diabo,  só vives comendo?  

_ Nada  disso Chico. É que estou velho e não consigo parar a boca.

Mestre Chico era assim: arremedava as pessoas, mexia com um e com outro. Até a mulher não escapava dos seus gracejos.

Eta que seu Chico está bonito! Vai paquerar Mestre?

Vou não amiga. Vou rezar. É que hoje é dia de São José. Escolhi a roupa de seda que meus filhos me deram, calcei sapatos fechados, tudo isso para homenagear o Padroeiro.

Não demora muito, lá vem ele subindo a ladeira.Que foi papai, já voltou?

É que a igreja está cheia de gente e pra pessoas como eu,  não há lugar. Também,  São José nem vai nem vai notar a minha falta. Tem muita gente graúda lá dentro.

Corram, venham rápido,  aconteceu uma coisa horrível. Seu Chico foi traído pela natureza . Subiu no coqueiro e ele não aguentou seu peso.Caiu com a escada e o tronco por cima dele. Matou na hora.

Era dia seguinte ao do Padroeiro . A cidade ainda respirava o cheiro da procissão e do arraial e, lá  se foi Seu Chico. O Mestre que construía tudo. Que convivia com a natureza tão de perto, que conversava com os pássaros,  que benzia os doentes, que comia peixe cru,  que não viu que o coqueiro estava podre.

No dia do enterro caiu um enorme temporal. O céu desabou em água ou chorou mesmo a sua morte. Dentro da sala onde era velado o corpo, um monte de mulheres chorava.

De onde a senhora conhecia o morto? 

Olha minha filha, ele era nosso anjo da guarda. Não nos deixava sofrer sozinhas. Sempre tinha um  bocado de comida para nos dar. Fazia benzeduras nas nossas dores, contava piadas para afastar nossas tristezas.

Temos mais é que chorar.

E Mestre Chico era assim…

Esquisito, diferente, puro.Quando ouço a sabiá cantando nas árvores do quintal da casa dele, fico pensando e chego a suspeitar se não seria ele que volta de vez em quando para saber nossas notícias. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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10 comentários em “Meu Pai_ Mestre Chico

  1. Mana Carmem, não canso de ler esse texto. Lindo demais! Tem muito amor e emoção nessas palavras. Soubeste captar toda a ternura que caracterizava nosso velho pai, o grande mestre Chico! Um grande e terno abraço para ti carregado de muito amor!

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  2. Quando ia na casa da vovó, depois dos cumprimentos sempre ia no quintal pra mexer nas coisas do vovô Chico. Ele falava pra não mexer na rede, no serrote e etc. A verdade era que queria imitá-lo. As coisas que ele fazia causavam muita admiração pra mim criança que era. Saudades do vovô.

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  3. Mamãe fala sempre de como ele gostava da música “Morena Tropicana”, toda vez que toco no violão ela diz: “seu Chico adorava essa música”. Mas tinha outra: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…” de Gonzaguinha, dizia ela que era a cara dele.
    Tenho alguns flashes dele quando íamos á Macapá e de uma vez que esteve aqui e fomos á praia de Marudá, tenho as fotos.
    Papai contava muitas histórias do Moura, e de como gostava de pescar com o vovô, eram muitas histórias…
    Estava fazendo planos para itmos neste lugar, cheguei verificar como chegar lá quandi estive á trabalho pelo Iphan em Afuá, lugar que curiosamente tem na Câmara Municipal o nome de Francisco Chagas. Cheguei a pensar que era em homenagem ao vovô, mas papai me disse que não, que existem muitos Chagas na região…
    Não fizemos a viagem, papai partiu antes disso, mas sempre falo com Marco Aurélio dessa possibilidade, gostaria de levar meus filhos para vermos o famoso Moura! de onde sempre escutei histórias, tenho no meu imaginário desde criança e, por isso, sempre lembro deles…

    Grato pelo belo texto e pela linda iniciativa deste blog.

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    1. Respondi mas não enviei.
      Gosto de lembrar os momentos da infância e juventude . Gosto de escrever. Não para efeito de demonstração, mas escreve como falo, como sinto. Aí fiz este blog para treinar minha memória e fazer registros da família que tanto amo.

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