Destaque

Seu Chico

Meu Pai e eu no dia do casamento.
Igreja de São José de Macapá
1974

O sino da Igreja tocava cedo. Era dia de movimento : missa, procissão , arraial.

Era dia de alegria, roupa e sapatos novos, laços nos cabelos. Mamãe e Jesuca nos arrumavam como as princesas de hoje. Só tinha um detalhe: era tudo igual. Só mudava a cor, uma de azul e a outra de rosa.

Andar de barquinha, comer maçã do amor, tomar Flip Guaraná com bolo…

Eram muitas as atrações. Íamos de mãos dadas para não nos perdermos. Quem poderia se perder naquela nossa Macapá que era só nossa?

E viva São José que voltava todos os anos.

Cresci. Já não me interessava mais pelas barquinhas. Gostava de servir na Barraca da Santa e passear no arraial, onde corria com os olhos para ver os meninos mais bonitos.

Casei, continuei esperando a chegada do nosso Padroeiro. Agora eu ia com Carolina e depois com a chegada de Gabriela, ia com as duas.

O tempo! Esse tempo que leva tudo, levou meu pai logo no outro dia da festa! Levou um pouco das boas lembranças e deixou uma barca cheia de saudades que todo ano balança de um lado para outro, dia 19, alegria. Dia 20, saudades.

Foi no dia 20 de março de 1985 que ele se foi.

Nasceu de uma família grande. Tinha muitos irmãos e deixou sete filhos. Perdi a conta de quantos anos ficaram casados. Ele e mamãe Nair deixaram um legado muito forte: o Amor. Éramos sete filhos. Hoje restam quatro neste planeta pois os outros e eles dois nunca se separaram. Todos deixaram a mesma marca do Amor nas famílias que constituíram.

Estes são os Monteiro Chagas. Os filhos de Francisco Xavier das Chagas, Mestre Chico ou Seu Chico, meu pai, e D. Nair Monteiro Chagas.

Hoje, tem muitos netos e bisnetos.Outro dia vou escrever sobre eles. É que hoje é dia de São José, dia de missa, de procissão, de arraial e não podemos perder pois amanhã é outro dia, dia 20. Só vai restar a saudade dele e de todos que se foram , mas continuam esperando o badalar do sino da Igreja de São José de Macapá .

Dia 10 de julho.

Julho é um mês especial! Mês onde se comemoravam as férias escolares e o sol da minha Macapá brilhava e sorria para alegria de todos nós, acostumados com a chuva!

Pois bem, em julho comemoramos no dia 22,o aniversário de nossa mãe Nair que lá do céu toma conta de nós esperando seus presentes e a presença de todos.

Aí, dia 10 julho de 2020, nasceu em Londres nossa mais nova estrelinha.

Por isso, dia 10 de julho, para nós é dia de Ayla.

Ayla é filha de nossa querida e sapeca Gabriela , com Max.

Mas, nossa alegria hoje é comemorarmos a vida. Sim, estamos distantes fisicamente, mas com os corações juntinhos que dá até para percebermos nossos batimentos e não conseguimos distinguir de quem e quem é quem.

Ayla é também uma vitoriosa! Podia até ser chamada de Vitória, pois já no ventre de Gabi, acompanhou a saga de seus pais em luta contra esse vírus que devasta a humanidade.

Fez várias viagens longas dentro e fora de seu primeiro mundo, resistindo com toda a fé. Fé inabalável que sua mãe também nunca deixou um momento sequer.

Os três
Iniciando o samba.

Ayla, é uma criança meiga, tranquila, doce , de um sorriso cativante que nos transmite paz e nos faz mais confiante quando percebemos sua pequena trajetória ,onde as dificuldades fizeram- na crescer, resplandecendo as bençãos que o Senhor lhe concebeu, o que a torna muito mais amada por todos.

Momentos…

Como hoje é dia de Ayla , vamos agradecer à Deus por todas as bênçãos recebidas, parabenizar Max e Gabriela e mandar todas as boas vibrações do universo para ela. Que Maria de Nazaré te abençoe e te cubra com seu Manto. Ela que foi nosso maior exemplo de mulher, de mãe e filha aqui na terra.

Sim, tenho certeza que seu avô Clóvis será o primeiro a chegar em Bali , pois jamais perderia a oportunidade de abraçar, mesmo na esfera espiritual, sua netinha.

E nós, daqui do Brasil , daqui da Amazônia, nós, as descendentes das guerreiras, te saudamos e te bendizemos como a mais nova da tribo que junto à Lara me tornou uma vó bobona, feliz, esperançosa e com garra para enfrentar os obstáculos para sermos felizes.

Mais momentos…

Te amo Ayla. PARABÉNS!

VIVA NOSSA AYLA!

Mulheres.

Dificil lembrar das mulheres e suas grandiosas vidas sem lembrar primeiramente de Nossa Senhora, a mãe de Jesus.

Quando lembro do seu sofrimento ao acompanhar o calvário de seu Filho, num silêncio doloroso, fico me imaginando no seu lugar.

Eu, estaria descabelada, gritando e derramando rios de lágrimas.

Penso que poderia pegar um pau e sair batendo em todos aqueles que riam e aplaudiam aquele crime.

Mas Ela, Nossa Senhora, nos ensinou que precisamos lutar, sem transgredir e aceitar tudo que nos é mandado dos céus.

Não aprendi. Continuo procurando a resposta de como pode ser tão serena diante de tanto sofrimento.

Aí, aqui na terra, mais perto de minha realidade, vejo tantas mulheres que me serviram de exemplo. Começo por minha mãe.

Nair, guerreira, trabalhadora, religiosa, inventora, professora e amiga dos pobres.

Nunca consegui compreender como dedicou a vida ao trabalho para ajudar papai no sustento dos filhos , esquecendo de si , pois sua felicidade era nos servir.

Aí,  preciso de muito espaço para homenagear essa criatura que nos deixou sem chão e até hoje, passados tantos anos, tem seu espaço marcado na vida dos filhos, netos e bisnetos.

Agora, tem a Chicuta. Um ser tão sublime que ajudou na nossa criação e que nos deixou exemplo de humildade e amor ao próximo com sua solidariedade   e amor em sua plenitude.

Ah! Na caminhada de minha vida, Deus colocou a Ilza. Ainda está entre nós,  toda faceira, com seus muitos anos de vida , filhos, netos, bisnetos e parece que tem até  tataraneto. À ela dedico um grande agradecimento por ter nos ensinado tanto.

Agora, tenho duas irmãs,  duas mulheres lindas! A mana Jesuca que está acima de qualquer adjetivo qualificativo pois agora dentre tantas atividades, virou garota propaganda de loja de modas e está sempre procuando novas aventuras.

E a mana Regina! A mais nova, a rainha. Aquela que foi em busca de suas realizações e das pessoas ao seu redor com seu estilo muito próprio de viver , levando sua alegria e seu amor pela vida.

Não poderia deixar de homenagear nossas filhas Carolina e Gabriela que são duas mulheres valentes, lutadoras, conquistadoras, por quem serei capaz de entregar minha vida.

Homenageio todas as mulheres que de uma forma ou outra lutam por seu espaço neste mundo tão assustador que estamos vivendo.

Três mulheres
Jesuca, Ilza,Carmem e Regina
Eu e Carolina em Ubud
Eu e Gabriela em Ubud.

E para finalizar, meus agradecimentos pelo presente de duas netas que me enchem de felicidade.

Ayla
Lara

Pensamentos…

Que coisa estranha são os pensamentos!

Às vezes imagino que eles saem da cabeça e voam, voam e voam.

Outras vezes, percebo que eles vêm do abdomem. É quando penso e sinto um calafrio na barriga.

Hoje, estou assim: alguns saem e outros entram e então, estiquei as mãos e… pluft agarrei uns.

A necessidade de nos agarrarmos à vida. Que vida?

Aliás, chega um tempo em que as coisas boas que vivemos já estão guardadas e não interessam mais nem a nós mesmos.

As coisas ruins também desaparecem pois só nós os donos ,sabemos o quanto nos machucamos ou quanto machucamos alguém.

Então, o que resta é um comprimindo aqui, outro ali. Uma dorzinha aqui outra ali até que chegue o dia em que tudo se acaba.

As fotografias, os quadros na parede, os objetos pessoais, tudo vai sendo substituido e a roda virando…

Não consigo viver de saudade.

Será que consigo pelo menos viver enquanto aguardo a chamada?

Idoso já não conta nem por sua experiência. Tem o Google para contar a história.

É claro que existem as exceções. Há algumas espécies que correm, saltam, dançam, competem com os jovens.

Esses vão ficar para a eternidade.

Mesmo assim, quando a Covid leva um, as pessoas dizem: já era velho. Pior são os jovens que nem chegaram a viver.

E eu pergunto: que vida?

Sonho ,sem número .

Cada vez que enfio a tigela naquele tonel de água fria e límpida, sinto meu corpo leve e livre das impurezas que durante tantos anos se juntaram à mim.

Ao meu lado, disputando comigo as delícias daquele banho, há uma criança , mas não consigo visualizar seu rosto.

Sinto que é um menino forte, saudável e bom. Sorri , todas as vezes em que enfiamos a vasilha na água e a jogamos sobre nossas cabeças.

Descubro que estou na casa de Regina. De longe, percebo que ela arruma as coisas. O lugar onde me encontro parece ser a cozinha da primeira casa da vovó. O assoalho é de madeira. Pela janela consigo ver uns pés de bananeiras, rodeando um lago com água limpa como aquela que escoa pelo meu corpo.

Lá fora há um terraço com uma escada larga onde algumas pessoas andam, outras estão sentadas, mas quem fala comigo é mamãe. Está impecavelmente vestida! Sentada na cadeira de macarrão , se balançando.

Percebo que ela veio para a inauguração da casa.

A sala já está com duas cortinas bege. Regina segura um rolo de tecido rosa. Ela estica-o até o teto e Jesuca olha.

As duas não conversam, mas se entendem perfeitamente.

Sei que estou lá, mas é como se olhasse sem ser vista, mas tenho a certeza que mamãe me vê. Ela me olha serenamente.

E aí, estamos reunidos: mamãe, Eu, Teodorico, Regina e Jesuca. Estamos felizes. A casa de Regina está linda! Seria um sonho esse encontro? Seria uma vontade de reencontro?

Nada importa quando já não estamos tão completos. De completo resta a saudade. A vontade de falar o que não falamos, de sonhar com o reencontro e de reviver os momentos que só sonhamos.

Acordar depois de tantos momentos sublimes dá vontade de continuar sonhando…